Eram duas e meia da tarde quando peguei o ônibus que me despejaria em Hollywood. Pessoas alvoroçadas se entremeavam entre o alambrado que dividia o mundo das “estrelas” e o universo dos simples mortais. Eu me deixei tomar por toda aquela energia fantasmagórica e incandescente, aos poucos e em montes se aproximavam as “Limusines” que por sua vez, cada qual guardava em si a esperança de uma multidão.
O primeiro a aparecer foi “Valentino”, que num falso ato de cortesia abriu uma pequena fresta de seu vidro dando Brioches a quem pedia pães. Gentilmente “Antony Hopkins” desceu de seu modesto carro em frente à multidão e caminhou sem medo de ser feliz, se mostrando um “Outsider” do “Red Carpet”. Prosseguindo, como numa adega de vinhos selecionados foram passando um por um dos rótulos mais conhecidos do mundo do cinema, foi então que como dizia Maísa: “Meu mundo caiu”.
Me vi devorado por mim mesmo, quando logo depois, quase imediatamente regurgitado. E fiquei flutuando no vômito de meus próprios desejos. Tudo era artificial, tudo era proposto, composto e desgosto. O cinema meus caros leitores, não é a arte do entretenimento, não é a arte das pessoas bonitas, esticadas e bem comidas. O cinema é arte, portanto é “inrrotulável”.
Podia ronronar horas explanando os motivos de “Slumdog Millionare” (Quem quer ser um Milionário) ser o pior filme de todos os tempos, mas a desgraça passou, e agora companheiros da academia, levantar a cabeça e bola pra frente. O Oscar foi tão pequeno, tão pequeno que quase desapareceu, o que não seria lá uma coisa tão ruim não é?
O ano que passou me pareceu um tanto quanto infértil para a produção cinematográfica mundial. Os roteiristas que exigiam reconhecimento (o que já era em tempo) paralisaram a indústria no primeiro semestre e por ironia foram paralisados por ela no segundo. A crise chacoalhou até a galinha de ovos de ouro. Assim os filmes foram sendo empurrados com a barriga, produções paralisadas, edições capengando. E eu me via num beco sem saída. E agora? O que eu vou fazer no cinema? Comer pipoca?
Mas para o bem de minhas “sinapses” o que parecia impossível (nem tanto), talvez improvável sucedeu. “The reader” ou “O Leitor” veio certeiro contradizer meus pensamentos ora já contraditos, e provar que o dinheiro a mesquinharia e a burocracia das grandes indústrias não impedem o florescer de obras primas.
A beleza do filme é indescritível, o roteiro incabível enquanto “Kate Winslet” prova que a vida pessoal, as benfeitorias ou até mesmo uma carinha bonita, passam longe dos atributos de uma grande atriz, o único adjetivo capaz de esboçá-la é “profissional”, qualquer outro certamente diminuiria sua grandeza. Pois ela dá um banho e se mostra acima de Oscar e Oscars.
Quanto ao filme? É um suspiro, certamente um dos melhores filmados nos últimos cinco anos. É um misto de prazer e loucura que me deixou em transe naquela desconfortável poltrona daquele agradável cinema. Não é todo dia que se é possível ver um clássico que indiscutivelmente entrará para a história na telona. Por isso caros leitores corram aos cinemas e saboreiem o que há de melhor na sétima arte. E preparem-se para nunca se esquecerem de um mito chamado “Kate” a “Winslet”.
OBS (para os obedecidos): Uma das cenas do filme eu classificaria, e sem medo, como uma das cenas mais delicadas da história do cinema, pois põe em “xeque” valores morais e desenterra Freud e de “lambuja” Nietzsche. Estarei feliz em receber sua opinião...
Oxum de Jesus





